Blog de Sátiro


07/03/2010


Estou no computador, trocando energias virtuais com uma máquina. Lá fora o gato me chama para abrir a porta, não vou atendê-lo tão breve, deixo o bicho sofrer mais um pouco. Quer voltar para o seu conforto, agora que a luz do sol começa a anunciar o domingo. Quisera como ele eu ter ido aproveitar a noite de sábado, como ele degustado todos os tipos de caça, como ele ter-se deixado levar pelo instinto permissivo da noite de sábado...

Enquanto virtualizo acordado, meu gato, melhor do que eu realiza seus intensos instintos animalescos. Meu gato será mais feliz do que eu? Ao saltar seus muros, subir pelas paredes, passear sobre  os telhados, cortar a noite com seu miado estridente, sabe-se se de dor ou prazer ao ter-se com as fêmeas... E eu aqui, sem dor, nem prazer, apenas ouvindo seu miado acompanhado pela luz do sol que consegue penetrar nas frestas da janela...

E eu aqui, sem nada estridente, sem aventura, sem realidade, correndo mais um domingo, mais um dia no mês de março... sem saber de mim mesmo estando aqui tão perto...

Já me soube mais quando era mais imaturo... Hoje meu gato sabe mais do que eu...

Vou abrir a porta, deixá-lo se alimentar, descansar... Afinal o meu amor por ele é maior do que meu despeito...

 

Escrito por Sátiro às 07:51:45
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06/11/2009


Corre... corre... desenfreado o Coelho de Alice... sempre ouvindo o tic-tac de seu cruel relógio... "Eu tenho pressa, eu tenho pressa" ... Eu também tenho pressa, numa via anti-horária...

Escrito por Sátiro às 11:33:13
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"Mrs. Dalloway said she would buy the flowers herself..."

Estou com a impressão que entrei na porta errada... não estou reconhecendo o meu lugar aqui... sabe aquela sensação de linha cruzada, ruído, estrondo, estampido na cabeça... uma tênue linha pra esquizofrenia? O que fazer quando não se pode voltar depois de cruzar a porta?
Minhas fotos, meus pequenos instantâneos em álbuns infindáveis de felicidade de catálogo de loja me irritam... Estou com náusea, tenho náusea o dia todo... não posso voltar porta afora... estou fechado aqui... com esse enjôo da vida que se gasta preciosamente... que se esbanja em nada... além dos sorrisos instantâneos para as fotos... o nada é vergonhoso... Gastar a vida esbanjando preciosidade em nada também... e o coelho da Alice impiedosamente frequenta meus sonhos para me lembrar que não há como voltar porta afora... não há...
Um dia desses, chuvosos, sonhei que caminhava até o rio com blocos de tijolo dentro dos meus bolsos... "to look life in the face"... Se eu fizesse o que Virginia fez, o que deixaria? Um nomezinho opaco grafado numa lápide... um nome quase sem nome... um nome translúcido nas memórias... como celofane ... apagando-se com o tic-tac do relógio do coelho... "always the hours" ... estou entediado da vida... achei que ela fosse mais engraçada, romântica, interessante, charmosa... quem manda ter lido tanto folhetim... Só de ver a vida passar... acumular idade, me dá um desespero... e nada demais acontece... tenho falado como quem antecipou a crise de meia idade... mas comigo sempre foi assim, sou ansioso demais... sofro antes... morro na véspera... sofro cinco anos antes... e me calo... só meu corpo não se cala... ultimamente nem sentado consigo ficar por muito tempo... Há alguma coisa de errado com tudo isso... a porta, a volta impossível, o coelho, a ansiedade, Virginia, o que será isso tudo? Espelho, espelho meu ... deu ocupado ... sempre dá ocupado... Mas eu já imagino a resposta... ele vai me dizer: "isto tudo é culpa da sua mãe" ... sempre é culpa da mãe... ou quase sempre... a chuva persiste lá fora... tomara que Virginia não venha hoje... vou dormir...

Escrito por Sátiro às 02:29:16
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